Como o movimento "Redpill" está ganhando força entre os jovens

Entenda como algoritmos e discursos de falsa equivalência moldam percepções distorcidas sobre masculinidade e relações de gênero.

 

Grupos masculinos têm utilizado fóruns online, redes sociais e outros canais de comunicação por décadas para fomentar a misoginia, um ódio estrutural contra as mulheres que visa manter privilégios masculinos históricos, sejam sociais, culturais, econômicos ou políticos. Segundo ativistas e pesquisadores, esses movimentos e ideologias servem de catalisador para atos de violência concretos, como o recente estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro.

Eles operam sob códigos próprios para difundir ideias de exclusão. Uma das principais estratégias é o uso do termo "misandria", um suposto ódio sistêmico contra homens, para deslegitimar leis de proteção à mulher e o feminismo, classificados por esses grupos como ferramentas de destruição da masculinidade.

Nesse cenário, surge o masculinismo como antítese ao movimento por igualdade. Enquanto o feminismo defende a igualdade de direitos, o masculinismo prega o retorno a uma "masculinidade tradicional", defendendo uma estrutura social com direitos diferenciados e a subordinação de gênero como norma.

O universo de comunidades que propagam discursos de ódio contra mulheres é composto por diferentes grupos com linguagens e táticas específicas. Conheça as principais nomenclaturas:

Machosfera: termo guarda-chuva que engloba fóruns, canais e redes sociais dedicados à defesa da masculinidade tóxica, à oposição aos direitos das mulheres e à disseminação de ideologias misóginas.

Chans: fóruns anônimos que funcionam como redutos de discursos extremistas, frequentemente utilizados para coordenar ataques virtuais e vazamento de imagens íntimas.

Incels (Celibatários Involuntários): homens que nutrem ressentimento contra as mulheres por não conseguirem parceiras sexuais ou românticas. O grupo frequentemente associa sua frustração a discursos de violência e culpabilização do gênero feminino.

Redpill: termo apropriado do cinema para descrever homens que acreditam ter "despertado" para uma realidade oculta. Acreditam que a sociedade é manipulada por mulheres e defendem a retomada do domínio masculino e a submissão feminina.

MGTOW (Men Going Their Own Way): homens que pregam o afastamento total de vínculos afetivos com mulheres. Alegam que leis e instituições sociais modernas são injustas com o sexo masculino, incentivando o isolamento como defesa.

Pick Up Artists (PUA): os chamados "artistas da sedução" utilizam técnicas de manipulação psicológica para obter sexo, tratando a mulher como objeto ou prêmio de conquista.

Tradwife (Esposas Tradicionais): mulheres que utilizam as redes para promover o retorno aos papéis de gênero do século passado, defendendo a submissão total ao marido e a dedicação exclusiva ao ambiente doméstico.


Cena de Matrix em que Morpheus oferece a Neo duas pílulas: uma vermelha e outra azul | Foto: Reprodução/Warner Bros. / Alto Astral


A evolução dos grupos nas redes sociais

A trajetória do discurso Redpill nas plataformas digitais revela uma evolução estratégica. Originalmente restrito a fóruns anônimos e comunidades fechadas, o vocabulário misógino passou por um processo de reformulação estética. Atualmente, essa retórica é disseminada por meio de vídeos curtos, memes e podcasts de alto alcance, que transformam o preconceito em um formato de consumo rápido e visualmente atraente.

Essa mudança de formato é fundamental para o recrutamento. Ao adotar uma linguagem pautada pelo humor, por provocações e frases de efeito, o movimento consegue infiltrar ideias extremistas em formatos de fácil consumo.

Essa transição é potencializada pelos algoritmos das redes sociais, que privilegiam conteúdos de alto impacto emocional e conflito. O resultado é a criação de um funil de radicalização: o contato inicial com vídeos de autoajuda ou musculação pode evoluir para uma trilha contínua de conteúdo de ódio. Com isso, adolescentes passam a perceber mulheres não como indivíduos, mas como ameaças ou adversárias, comprometendo a formação de vínculos saudáveis no mundo real.

O impacto sobre jovens e adolescentes

A influência desses conteúdos sobre adolescentes e jovens adultos ocorre de forma gradual. O que inicialmente se apresenta como um discurso "provocador" ou de "sinceridade brutal" atua como uma porta de entrada para a reformulação de conceitos fundamentais sobre masculinidade, afetividade e o papel social da mulher.

O risco central reside na construção de uma visão distorcida da realidade. Sob essa ótica, a subjetividade feminina é anulada: as mulheres deixam de ser percebidas como indivíduos complexos para serem categorizadas como ameaças, troféus ou adversárias. Esse deslocamento não fica restrito ao ambiente digital; ele altera profundamente a capacidade desses jovens de estabelecer vínculos saudáveis e éticos no mundo real, substituindo a empatia por uma postura de hostilidade.

Com informações da Agência Brasil.

Compartilhar

Tags