O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, apresentou publicamente pela primeira vez nesta quarta-feira (11) três condições para o fim da guerra contra os Estados Unidos e Israel. A declaração foi feita em publicação na rede social X, antigo Twitter, após conversas com os líderes da Rússia e do Paquistão.
"Reafirmei o compromisso do Irã com a paz na região. A única maneira de pôr fim a esta guerra, instigada pelo regime sionista e pelos EUA, é reconhecer os direitos legítimos do Irã, pagar reparações e oferecer firmes garantias internacionais contra futuras agressões", escreveu Pezeshkian na rede social.
As três exigências listadas pelo presidente iraniano representam a primeira sinalização oficial de Teerã sobre as condições para encerrar o conflito, que completa duas semanas nesta quinta-feira (12). O posicionamento ocorre em meio à intensificação dos ataques em toda a região do Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz, via crucial para o escoamento de cerca de 20% do petróleo mundial.
O contexto da guerra
O conflito teve início em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram uma ofensiva aérea conjunta contra o Irã, batizada de Operação Fúria Épica pelo Pentágono. Os ataques iniciais resultaram na morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, que liderava o país havia décadas, além de outras autoridades do alto escalão do regime.
Em resposta, o Irã passou a realizar ataques contra alvos militares e econômicos em diversos países da região, incluindo Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia, Iraque e Omã. As autoridades iranianas afirmam que miram apenas interesses dos Estados Unidos e Israel nessas nações.
O conflito também se expandiu para o Líbano, onde o Hezbollah, grupo armado apoiado pelo Irã, passou a atacar território israelense em retaliação à morte de Ali Khamenei. Israel, por sua vez, tem realizado ofensivas aéreas contra alvos do grupo no país vizinho. Centenas de pessoas morreram no território libanês desde então, e cerca de 760 mil moradores foram obrigados a abandonar suas casas.
As condições iranianas
Na estrutura política do Irã, o presidente exerce poder subordinado ao líder supremo e aos comandos militar e religioso do país. A autoridade máxima atualmente é Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, escolhido por uma assembleia de clérigos para suceder o pai. Mojtaba Khamenei sofreu ferimentos leves no ataque que matou seu pai, mas segue no comando do país, embora não tenha feito nenhuma declaração pública desde a nomeação.
Analistas apontam que o novo líder supremo não deve promover mudanças estruturais no regime e representa a continuidade da linha dura adotada por seu antecessor. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestou descontentamento com a escolha, classificando-a como um "grande erro" e afirmando que Mojtaba seria "inaceitável" para a liderança do Irã.
A posição dos EUA
Em declarações recentes, Trump afirmou que os Estados Unidos venceram a guerra contra o Irã, embora não tenha apresentado provas para sustentar a afirmação. O presidente americano disse ainda que o conflito deve prosseguir, já que os EUA não querem ter que retornar ao Irã a cada dois anos.
Horas antes, o republicano afirmou que as forças americanas derrubaram a liderança do Irã duas vezes, sem citar nomes. A Casa Branca e o Pentágono têm exigido uma "vitória completa" sobre o Irã, enquanto o secretário de Defesa Pete Hegseth falou em "rendição incondicional" por parte de Teerã. Autoridades israelenses, por sua vez, afirmaram que a guerra continuará enquanto for necessário.
Os ataques no Golfo e no Estreito de Ormuz
Enquanto as negociações diplomáticas não avançam, os ataques na região do Golfo seguem intensos. De acordo com a agência britânica de segurança marítima UKMTO, pelo menos 16 navios sofreram danos ou foram incendiados desde o início da guerra, entre 28 de fevereiro e 12 de março.
Nesta quarta-feira (11), quatro navios foram atacados na região. O graneleiro Mayuree Naree, com bandeira da Tailândia, foi atingido por um projétil no Estreito de Ormuz, provocando um incêndio a bordo e a evacuação da tripulação. Três tripulantes continuam desaparecidos, segundo o Ministério de Transportes da Tailândia.
O navio porta-contêineres One Majesty, de bandeira japonesa, sofreu danos leves causados por um projétil a 46 quilômetros a noroeste de Ras Al Khaimah, nos Emirados Árabes Unidos. Outro graneleiro, com bandeira das Ilhas Marshall, teve o casco danificado por um projétil a aproximadamente 80 quilômetros a noroeste de Dubai.
A Guarda Revolucionária do Irã reivindicou os ataques e afirmou ter disparado também contra a embarcação Express Rome, de bandeira da Libéria. O país declarou que não permitirá que nem um litro de petróleo passe pelo Estreito de Ormuz em benefício dos Estados Unidos e de seus aliados.
Os ataques no Estreito de Ormuz têm provocado forte volatilidade nos mercados globais de energia. O preço do barril de petróleo Brent ultrapassou a marca de US$ 100 nesta quinta-feira (12), nas negociações asiáticas, mesmo após 32 países membros da Agência Internacional de Energia (AIE) anunciarem a liberação de 400 milhões de barris de reservas emergenciais para acalmar os mercados.
O Brent, referência internacional do petróleo, registrou alta de cerca de 6%, sendo negociado a US$ 97 por barril por volta das 4h30 (horário de Brasília). O petróleo WTI, referência nos Estados Unidos, também subiu, aproximando-se de US$ 88 por barril.
A Guarda Revolucionária do Irã emitiu alerta dizendo que os inimigos do país não conseguirão baixar artificialmente o preço do petróleo e que em breve ele deverá chegar a US$ 200 por barril.
O apoio da Rússia e do Paquistão ao Irã
A Rússia condenou os ataques dos Estados Unidos e de Israel, afirmando que eles arrastaram os países árabes para uma guerra. Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores russo declarou que as ações ocidentais provocaram deliberadamente o Irã a retaliar com ataques contra alvos árabes, resultando em perdas humanas e materiais.
O presidente Vladimir Putin prometeu apoio ao Irã e ofereceu ajuda ao novo líder supremo Mojtaba Khamenei. Segundo o jornal Washington Post, o governo russo estaria repassando ao Irã, desde o início da guerra, a localização de ativos militares dos Estados Unidos, como navios de guerra e aeronaves.
Na segunda-feira (9), Trump e Putin conversaram por telefone sobre o conflito no Irã, em ligação confirmada pelo Kremlin com duração de cerca de uma hora. Putin teria apresentado propostas para uma solução rápida do conflito, conforme a agência de notícias Reuters.
O Paquistão também tem demonstrado apoio político a Teerã. Autoridades do país classificaram os ataques norte-americanos e israelenses como injustificados e defenderam a retomada da diplomacia.
O balanço de vítimas
Mais de 1.200 civis morreram no Irã desde o início da guerra, segundo a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, com sede nos Estados Unidos. A Casa Branca registrou ao menos sete mortes de soldados americanos em decorrência dos ataques iranianos.
No Líbano, pelo menos 570 pessoas morreram nos ataques israelenses, de acordo com o governo libanês.
