A comandante da Guarda Civil Municipal (GCM) de Vitória, Dayse Barbosa Matos, de 38 anos, foi morta a tiros na madrugada desta segunda-feira (23) pelo ex-namorado, Diego Oliveira de Souza, policial rodoviário federal lotado em Campos dos Goytacazes (RJ). Após o crime, ele tirou a própria vida na cozinha da residência onde a vítima morava, no bairro Santo Antônio, na capital capixaba.
Os detalhes do crime
Segundo informações da Polícia Civil, Diego usou uma escada para invadir a casa da vítima por volta de 1h da madrugada. Ele entrou no quarto onde Dayse dormia e efetuou cerca de cinco disparos contra a vítima.
O pai da comandante, Carlos Roberto Teixeira, também estava na residência no momento do crime. Ele relatou que acordou ao ouvir o primeiro disparo. “Não deu tempo de nada, ele entrou atirando. No primeiro tiro eu já acordei. Abri a porta devagarzinho, olhei, vi ele correndo, mas não deu para sair, fiquei com medo de levar um tiro também”.
Na mochila de Diego, a polícia encontrou um canivete, uma faca, um vidro de álcool, carregadores de munição, alicate e um isqueiro. De acordo com o secretário de Segurança Urbana de Vitória, Amarílio Boni, a presença desses materiais indica que o crime foi premeditado. “A circunstância é que ele foi com o intuito de cometer o feminicídio. Ele levou materiais para entrar na residência. Tudo indica que ele a pegou deitada e efetuou os disparos, sem possibilidade de reação”.
A perícia identificou que a comandante foi atingida por três disparos de arma de fogo na região da nuca. Após o crime, Diego foi até a cozinha e tirou a própria vida.
O histórico de violência
Conforme explica a titular da Delegacia de Homicídios e Proteção à Mulher, delegada Raffaella Aguiar, Diego não aceitava o fim do relacionamento de quase quatro anos. As investigações apontam que a guarda tentava romper com o policial, considerado "possessivo e extremamente controlador".
Apesar da postura violenta de Diego, a comandante nunca denunciou ou relatou as agressões aos colegas de trabalho ou à Polícia Civil. "A comandante nunca tinha relatado (casos de violência) para os companheiros dela, lá da Guarda Municipal, bem como não tem nenhum registro junto à Polícia Civil", contou a delegada.
Dayse já havia terminado o relacionamento e trocado o cadeado de sua casa devido a ameaças de morte, ainda segundo informações preliminares.
Para a delegada, o caso mostra que a violência não é motivada por algum comportamento ou característica da vítima, e sim pelo fato de ela ser uma mulher, independentemente de sua posição ou força.
"O caso é tão emblemático, porque ele mostra que não é sobre quem é a vítima, porque ela (Dayse) é uma mulher forte, é uma autoridade. A violência não começa naquele momento em que houve o primeiro disparo que ceifou a vida dela".
Raffaella também destacou o perfil de controle do agressor. "Diz sobre ela não querer mais aquele relacionamento e ele falar: 'Não, você é minha e agora você vai pagar até mesmo com a sua vida, porque a partir do momento em que eu enxergo que você é meu objeto, você é um instrumento da minha dominação".
O caso é investigado como feminicídio pelo Departamento Especializado de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP). Os celulares dos dois foram encaminhados para análise pericial para tentar descobrir a motivação para o crime.
O processo disciplinar na PRF
Diego Oliveira de Souza respondia a um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) na Polícia Rodoviária Federal (PRF) por importunação sexual. O procedimento investigativo foi instaurado pela Corregedoria da PRF no Rio de Janeiro em 2025, após uma denúncia de uma ex-agente da corporação.
Em nota, a PRF informou que o PAD foi instaurado assim que a corporação tomou conhecimento da denúncia. A investigação, que poderia resultar na demissão do servidor, estava em fase final de conclusão, e o esperado era de que o policial fosse demitido.
Oficialmente, Diego era investigado pela suposta prática de incontinência pública e conduta escandalosa na repartição, que consta no Artigo 132, inciso V, da Lei n° 8.112/90.
Ainda em nota sobre o caso, a PRF manifestou pesar pelo falecimento de Dayse e comunicou também a morte do policial. "A Polícia Rodoviária Federal (PRF) manifesta enorme pesar pelo falecimento de Dayse Barbosa Matos, comandante da Guarda Civil Municipal de Vitória (ES), em ocorrência de homicídio e autoextermínio que também resultou na morte do Policial Rodoviário Federal Diego Oliveira de Sousa, lotado na Delegacia da PRF em Campos dos Goytacazes (RJ)", diz o comunicado.
A trajetória de Dayse
Dayse Barbosa Matos foi a primeira mulher a comandar a Guarda Civil Municipal de Vitória, cargo que ocupava há três anos. Em sua atuação, trabalhava em ações de repressão à violência contra a mulher.
Em comunicado, a Prefeitura de Vitória lamentou o episódio e afirmou que a trajetória de Dayse foi marcada por ética, dedicação e coragem. "Profissional exemplar, Dayse Barbosa destacou-se também por sua firme atuação na defesa dos direitos das mulheres, contribuindo de forma significativa para o enfrentamento à violência e para a construção de uma sociedade mais justa e segura. Sua partida deixa um legado de respeito, força e compromisso com o serviço público", afirmou a pasta.
Diante da morte, a administração municipal decretou luto oficial de três dias.
Com informações da CNN Brasil e G1
